Mbappé brilha na Copa e é ativista fora das quatro linhas
Quando Kylian Mbappé recebe a bola no ataque, os fãs de futebol se preparam para uma jogada audaciosa e uma conclusão brilhante. E quando ele pega o microfone ou se dirige às redes sociais, a expectativa também é de palavras que refletem ousadia e engajamento social. Com o passar dos anos, o craque francês se tornou uma voz relevante no país e está em busca de sua terceira final de Copa do Mundo, atuando como um personagem que provoca tanto amor quanto ódio.
Confronto na semifinal
O adversário no campo é a Espanha, em um jogo marcado para esta terça-feira, às 16h, em Dallas, em uma semifinal que promete atrair a atenção de todo o mundo do futebol. Fora das quatro linhas, seus rivais vão desde casas de apostas até o partido de extrema-direita da França, com o qual Mbappé tem travado uma batalha ideológica desde 2024.
Ativismo e raízes
Filho de pai camaronês e mãe de ascendência argelina, o atacante se posicionou contra a retórica anti-imigração promovida pela Reunião Nacional (RN), liderada por Marine Le Pen e Jordan Bardella. Por conta disso, ele se alinhou publicamente ao presidente reeleito Emmanuel Macron, que representa a esquerda progressista. Uma boa parte da seleção francesa, que possui uma origem multicultural, também compartilha dessa veia ativista e costuma apoiar as opiniões de seu capitão.
Engajamento desde a infância
Um vídeo de 2011 que circulou na internet comprova que o jovem Kylian, aos 12 anos, já demonstrava habilidade em expressar suas opiniões sobre questões delicadas. No trecho, ele afirma que “na história, os melhores (jogadores franceses) foram negros e árabes, além de Platini e Cantona”. De fato, a geração que Mbappé cresceu admirando inclui nomes de destaque como Zidane, filho de argelinos, Thierry Henry, com ascendência de Guadalupe e Martinica, e Patrick Vieira, nascido no Senegal, entre outros.
Hoje, mais maduro, ele aposta no discurso de que a escolha consciente dos políticos é essencial para determinar o futuro que a França irá trilhar. Por conta disso, tem incentivado os jovens a irem às urnas nas próximas eleições, que ocorrerão em 2027, quando a extrema direita promete um forte retorno e Macron não poderá mais concorrer. “Somos uma geração que pode fazer a diferença. Vemos que os extremos estão batendo à porta do poder e temos a oportunidade de escolher o futuro do nosso país”, declarou, em entrevista à revista Vanity Fair, antes do início da Copa.
Com a moral de quem foi campeão do mundo aos 19 anos, o artilheiro também manifestou sua rejeição às casas de apostas, que dominam o mercado do futebol com propostas multimilionárias. Por essa razão, ele nunca aceitou um contrato para promover jogos de azar e se opôs à Federação Francesa de Futebol, visto que sua imagem foi utilizada sem autorização em uma campanha de uma casa de apostas que patrocina a seleção.
Controvérsias e ofensas racistas
Por enquanto, Mbappé se dedica exclusivamente à sua carreira como jogador de futebol. No entanto, se depender de um grupo de cidadãos do condado de Tallenay, no leste da França, ele poderia se candidatar à presidência. Em 2022, dez cidadãos usaram uma foto e o nome do camisa 10 para depositar seus "votos". O assunto voltou a ser debatido recentemente. O jornal Le Parisien mencionou a possibilidade de Mbappé se tornar político e questionou se ele considerava essa opção.
“Muita gente me diz isso, mas não está nos meus planos. Já sou odiado o suficiente (risos)”, comentou o craque, acrescentando que, após a carreira, pode se tornar treinador ou simplesmente administrar seus negócios.
O ódio que ele recebe vem, evidentemente, de opositores na sociedade francesa, além de pessoas de outros países. Durante a Copa do Mundo, a senadora paraguaia, Celeste Amarilla, fez um post racista após a eliminação de seu país para os Le Bleus, nas oitavas de final. Em suas declarações, Amarilla chamou Mbappé de “bruto”, sugerindo que ele “não aprendeu a escrever”, que “em vez de leite materno, mamava em cocos” e que “o mais instruído que já ouviu são chimpanzés”. Em outro texto, afirmou que ele é um “camaronês colonizado”.
A resposta do jogador não demorou a chegar. Mbappé se referiu à senadora como “uma mulher desprezível e indigna do cargo que ocupa”. A Federação Francesa, o presidente Macron, outras figuras políticas e do futebol, além da ONU, manifestaram repúdio às declarações de Celeste Amarilla.
Relação com o técnico e companheiros
No dia a dia com seus companheiros, a relação nem sempre foi a mais tranquila. Isso se deve ao fato de que Mbappé gosta de participar das decisões e ganhou bastante poder, tanto no PSG quanto na seleção. Neymar, por exemplo, foi um dos que não teve um desfecho positivo em sua relação com o colega.
Surgiu, então, o termo “ditador”, que ficou conhecido como uma brincadeira interna, originada a partir das críticas nas redes sociais. O próprio técnico Didier Deschamps é próximo do jogador, defende sua postura no vestiário e apoia seus posicionamentos. “Pode haver prós e contras (de expor opinião), mas o que me interessa é o Kylian, quem ele é e o jogador de futebol que ele é. Ele também é um cidadão, que tem o direito de se sentir afetado. Isso vai gerar debate, mas ele será criticado de qualquer maneira, quer se manifeste ou não”, afirmou Deschamps.
Possibilidade de novos recordes
Caso a França vença a Espanha, Mbappé pode igualar-se a Cafu como os únicos jogadores a alcançar três finais consecutivas em Copas do Mundo. Na primeira, contra a Croácia, ele marcou um gol e foi campeão. Já em 2022, ele contribuiu com três gols (dois de pênalti), mas viu a Argentina, liderada por Messi, conquistar o título no Catar.
Outras declarações políticas de Mbappé
Mbappé também fez declarações importantes sobre sua visão política: “Não podemos colocar todas as correntes políticas no mesmo nível. Não quero representar um país que não preze pelos meus valores. Quero me identificar sempre com os valores de diversidade, respeito e tolerância.” Além disso, ele afirmou: “Eu sei o que significa e que consequências pode ter para o meu país quando esse tipo de gente (extremistas políticos) assume o controle. Então, como cidadãos, temos o direito de expressar nossa opinião como qualquer outra pessoa.”
