Kiyomi Fujiwara e sua trajetória com a Seleção Brasileira
Kiyomi Fujiwara é uma jornalista japonesa que acompanha a Seleção Brasileira de Futebol há quase 30 anos. Sua presença é notável nas coberturas do Brasil desde a Copa do Mundo de 1998. Ao longo de sua carreira, ela testemunhou momentos marcantes, como o vice-campeonato na França em 1998, a conquista do pentacampeonato no Japão em 2002, e todas as campanhas subsequentes que prolongaram o jejum do Brasil em Copas do Mundo.
A ligação inicial com a Seleção
A conexão de Kiyomi com a Seleção Brasileira começou por causa de um dos maiores ídolos do futebol japonês, Zico. Na Copa de 1998, Zico era o coordenador técnico do Brasil e sua influência despertou o interesse da jovem repórter, que viu uma oportunidade de estreitar a relação entre o público japonês e o futebol brasileiro.
“Minha primeira cobertura da Seleção Brasileira foi na Copa de 1998. Eu estava começando a trabalhar com futebol e o Zico tinha assumido como coordenador técnico. No Japão, ele é tratado como um Deus do futebol. Vi ali uma grande oportunidade e criei um projeto para acompanhar a Seleção com o Zico, desde os três meses de preparação até o fim da Copa”, relembrou Kiyomi em entrevista ao J10.
Ela acrescentou: “Achei que três meses seriam muito tempo, mas passaram rapidamente. Não fiquei satisfeita e quis morar no Brasil para entender melhor o que representa a Seleção Brasileira. Muitas vezes, o Zico era uma pessoa no Japão e outra quando estava cercado por brasileiros. Eu queria conhecer esse outro lado. Comecei a pensar nisso e me mudei para o Brasil em 2001. Estou aqui até hoje.”
Do penta ao jejum de 24 anos do Brasil
Kiyomi reconhece que começou sua trajetória em um momento privilegiado da história da Seleção. Após o vice-campeonato em 1998, ela teve a oportunidade de ver o Brasil conquistar o pentacampeonato no Japão em 2002.
“Comecei bem demais. O Brasil não venceu em 1998, mas chegou à final. Depois, em 2002, foi campeão no Japão, meu país. Isso facilitou muito o meu trabalho. Várias emissoras me procuravam para programas especiais e regulares, e muitos japoneses, mesmo sem torcer pelo Brasil, sabiam a escalação da Seleção”, afirmou Kiyomi.
Com o passar dos anos, no entanto, vieram as decepções. A jornalista observa que o futebol já não tem o mesmo espaço absoluto que ocupava nas décadas anteriores, mas acredita que a relação dos brasileiros com a Seleção ainda é forte.
“Havia muita expectativa em 2006 e eu chorei. Em 2010 também. Ainda mais porque Dunga comandava a equipe ao lado do Jorginho, uma dupla que muitos japoneses admiravam. O povo brasileiro não é exatamente igual ao que vi em 1998. Hoje existem muitas outras opções de lazer, mas na Copa do Mundo todos se unem para torcer, às vezes para criticar também. O significado do futebol para o brasileiro não mudou. Quero continuar acreditando nisso”, contou.
Kiyomi também percebe uma diminuição do apelo internacional da Seleção no Japão, especialmente devido à ausência de jogadores que tenham o mesmo impacto midiático que as gerações anteriores.
“Antigamente, crianças e idosos conheciam o Ronaldo. Hoje muitos atletas jogam na Europa e são menos populares no Japão. Ainda existe carinho pela Seleção Brasileira, mas não é como antes.”
Confiança em Ancelotti e no crescimento durante a Copa
Em relação à equipe atual, sob o comando de Carlo Ancelotti, Kiyomi acredita que a falta de tempo de trabalho é o principal desafio para o Brasil em sua busca pelo hexacampeonato.
“O Brasil tem tudo para conquistar o hexa. A única coisa que faltava, e ainda falta, é tempo. Em um torneio como a Copa do Mundo, é preciso ajustar detalhes a cada partida. Talvez não seja fácil para os jogadores nem para o Ancelotti. Muitas vezes, um time melhora jogando. Ajustando e aprimorando alguns aspectos, isso pode acontecer durante a Copa”, analisou Kiyomi.
A jornalista também expressou respeito pelo Haiti, adversário do Brasil na próxima partida.
“Muitos japoneses falam que não dá para encarar o Haiti com facilidade. Eles fizeram um bom primeiro jogo. Outros acreditam que o Brasil pode vencer por 3 a 0. Existe muita expectativa, mas acho que a equipe vai melhorar a cada partida.”
Neymar ainda mobiliza o Japão
A possível volta de Neymar aos gramados gera grande interesse no Japão. Segundo Kiyomi, o camisa 10 da Seleção Brasileira continua sendo o principal tema de discussão quando se fala sobre a equipe.
“Até recentemente, a maioria das perguntas que recebi em programas de televisão e entrevistas era sobre o Neymar. Queriam saber apenas se ele vai jogar. Não é porque voltou ao campo agora que já vai enfrentar o Haiti e marcar três gols. Isso não acontece dessa forma. Mas todo o esforço que ele fez será recompensado. O Neymar vai causar medo aos adversários e alegria aos brasileiros e aos torcedores do mundo inteiro”, declarou Kiyomi.
Ela ainda fez uma comparação entre a situação do jogador e a recuperação de outros craques brasileiros em Copas passadas.
“A Copa do Mundo muitas vezes proporciona histórias especiais. Não é um milagre, porque o Neymar está se dedicando muito. O Ronaldo fez isso em 2002, o Rivaldo também superou problemas físicos. O Neymar vai fazer de tudo para viver algo parecido, marcar gols, dar assistências e corresponder à expectativa das pessoas”, contou.
Preferência por Brasil em um possível confronto com o Japão
Quando questionada sobre a possibilidade de um confronto entre Brasil e Japão nas fases eliminatórias, Kiyomi não escondeu sua preferência.
“O ideal seria que esse jogo acontecesse mais para frente, em uma semifinal, por exemplo. Sou japonesa, mas, pela minha trajetória de vida e pela profissão, estou torcendo para que o Brasil vença. O Japão jogou muito bem, mas quero continuar dizendo que quem ganha é o Brasil.”
Para a partida contra o Haiti, a jornalista aposta em uma vitória por 2 a 0 e acredita que um gol do jovem atacante Endrick poderia aliviar a pressão sobre ele.
“Se o Endrick marcar um gol, pode mudar o clima. Muitas pessoas ainda têm dúvidas sobre ele, mas isso ajudaria a diminuir a pressão. Gosto muito do Matheus Cunha. Então vou ficar com 2 a 0. Está perfeito”, finalizou Kiyomi.
