Brasil se torna a primeira seleção tricampeã mundial
Quatro anos após o insucesso na Copa do Mundo de 1966, a Seleção Brasileira viajou em 1970 para o México com o objetivo de superar a campanha anterior. Com uma geração repleta de jogadores talentosos, especialmente aqueles que vestiam a camisa 10, e em meio a um ciclo de mudanças no comando técnico, a Seleção conseguiu conquistar o tricampeonato, tornando-se uma equipe memorável na história do torneio e do futebol. Esta edição da Copa do Mundo teve a importância adicional de ser a primeira transmitida em cores pela televisão brasileira, permitindo que milhões de torcedores acompanhassem a jornada do time rumo ao título.
Eliminatórias
Devido à ausência de conquista na edição anterior, o Brasil teve que participar novamente das Eliminatórias. Sob o comando de João Saldanha, a Seleção fez um primeiro turno fora de casa, iniciando com uma vitória sobre a Colômbia por 2 a 0, seguida de uma goleada de 5 a 0 sobre a Venezuela e uma vitória de 3 a 0 contra o Paraguai. No returno, a Seleção jogou no Maracanã, onde começou goleando a Colômbia por 6 a 2 e a Venezuela por 6 a 0. Na partida decisiva, o público no estádio superou as 180 mil pessoas, estabelecendo o maior público oficial da história da Seleção. Pelé foi o responsável por marcar o gol que assegurou a classificação do Brasil.
Mudanças no comando técnico
Antes do início do Mundial, ocorreu uma polêmica troca na comissão técnica. João Saldanha foi substituído por Zagallo. O jornalista Armando Nogueira, em suas declarações, afirmou que a mudança foi exigida pelo presidente Médici, que não aceitou a exclusão de Dadá Maravilha, jogador que foi convocado para a Copa no lugar de Edu Coimbra, do America. Outra versão aponta que Zagallo teria invadido um treino do Flamengo armado, em um desentendimento com o técnico rubro-negro Dorival Knipel, rival de Saldanha após uma derrota em um amistoso contra uma seleção mineira.
Zagallo deu início à preparação da equipe quatro meses antes da estreia na Copa. A missão principal era ajustar um elenco que contava com cinco camisas dez: Pelé, Gérson, Rivelino, Tostão e Jairzinho. Além de treinamento no Rio de Janeiro, a Seleção também realizou atividades no México para se adaptar à altitude, com o auxílio de profissionais contratados pela CBD para garantir a melhor performance dos atletas. A comissão técnica incluiu preparadores físicos como Carlos Alberto Parreira e Carlos Coutinho, que mais tarde também viriam a comandar a Seleção.
No total, 23 jogadores foram convocados para a Copa do Mundo. Pelé era o único atleta a ter participado das conquistas de 1958 e 1962, além de ter jogado na edição de 1966, totalizando sua quarta participação em Mundiais e igualando a marca de jogadores como Castilho, Djalma Santos e Nilton Santos. Outros jogadores que também faziam parte da equipe que não teve sucesso na Inglaterra eram Brito, Jairzinho, Gérson, Tostão e Edu.
Fase de grupos
O Brasil fez sua estreia na Copa enfrentando a Tchecoslováquia, vice-campeã da edição anterior em 1962. No início da partida, Ladislav Petráš chegou a ameaçar a meta brasileira ao chutar na saída do goleiro Félix. No entanto, ainda no primeiro tempo, Rivelino empatou através de uma cobrança de falta. Um dos momentos marcantes do jogo ocorreu quando Pelé tentou um chute do meio de campo que quase resultou em um gol memorável. Na segunda etapa, Pelé recebeu um lançamento de Gérson, dominou a bola com o peito e finalizou com firmeza para virar o jogo. Rivelino, com um passe preciso, deixou Jairzinho em boas condições para marcar o terceiro gol. O Furacão ainda teve uma bela jogada individual, passando pela defesa adversária para fazer o quarto gol, encerrando a partida com uma vitória convincente.
Na segunda rodada, o Brasil enfrentou a Inglaterra em um jogo desafiador. A partida ficou famosa pela defesa considerada "mais difícil da história", realizada por Gordon Banks em uma cabeçada de Pelé. Félix também teve que se esforçar, realizando defesas importantes. No segundo tempo, Tostão fez uma jogada pela esquerda, cruzou para Pelé, que ajeitou a bola para Jairzinho, que marcou o único gol do jogo.
Na terceira e última rodada da fase de grupos, o adversário foi a Romênia. Pelé abriu o placar com um gol de falta logo no início. Três minutos depois, Paulo César fez uma boa jogada e cruzou para Jairzinho, que marcou o segundo gol. Antes do intervalo, Dumitrache conseguiu descontar ao chutar por baixo de Félix. No segundo tempo, Pelé aproveitou um cruzamento na área e, com um carrinho, fez o terceiro gol. Dembrovschi ainda anotou mais um para os romenos, mas não alterou o resultado. Ao final, o Brasil avançou com 100% de aproveitamento na fase de grupos.
Mata-mata sul-americano
Nas quartas de final, o Brasil enfrentou o Peru, que havia eliminado a Argentina nas Eliminatórias e era dirigido por Didi. Após criar algumas boas oportunidades, a Seleção abriu o placar com um gol de Rivelino, assistido por Tostão. Quatro minutos depois, Tostão fez o segundo gol. Apesar do Peru ter conseguido descontar com um chute potente de Gallardo ainda no primeiro tempo, o Brasil se recuperou no segundo tempo. Jairzinho fez um belo passe para Pelé, que lançou Gérson para marcar o terceiro gol. O Peru ainda conseguiu descontar novamente com Cubillas, mas Jairzinho, em uma jogada individual, driblou o goleiro e marcou o quarto gol, garantindo a classificação do Brasil.
Na semifinal, o Brasil reencontrou o Uruguai, que havia sido o carrasco da Seleção em 1950. Fora de campo, os uruguaios protestaram contra a mudança de local da partida, que foi transferida de Cidade do México para Guadalajara. Dentro de campo, a Celeste saiu na frente com um gol de Cubilla, após cruzamento de Morales. A Seleção Brasileira se reorganizou e conseguiu empatar minutos antes do intervalo com um gol de Clodoaldo, após uma bela troca de passes com Tostão.
No segundo tempo, a partida continuou nervosa, e o Brasil conseguiu a virada aos 24 minutos. Tostão lançou Jairzinho, que chutou no canto, marcando o segundo gol. Nos minutos finais, Pelé teve uma jogada individual em que ajeitou a bola para Rivelino, que marcou o terceiro gol. Nos acréscimos, Pelé quase marcou um gol antológico ao driblar o goleiro Ladislao Mazurkiewicz, mas acabou chutando para fora.
Decisão
A final seria contra a Itália, definindo qual seleção se tornaria a primeira tricampeã da história. Aos 18 minutos, Rivelino fez um cruzamento preciso após uma cobrança de lateral, e Pelé subiu para abrir o placar. Logo na primeira etapa, Félix saiu de forma equivocada do gol, e a bola sobrou para Boninsegna, que empatou o jogo. Na segunda etapa, o Brasil teve dificuldades para passar pela defesa italiana, mas os chutes de fora da área começaram a se destacar como uma arma eficaz. Gérson recebeu a bola na intermediária e arriscou um forte chute, marcando o segundo gol. Cinco minutos depois, o Canhotinha de Ouro lançou Pelé, que ajeitou de cabeça para Jairzinho invadir a pequena área e marcar o terceiro gol. Por fim, um dos gols mais memoráveis do futebol ocorreu quando Clodoaldo iniciou uma jogada na defesa, tocou para Rivelino, que lançou Jairzinho na esquerda. O Furacão acionou Pelé, que segurou a marcação e deu um passe preciso para Carlos Alberto, que chegou com tudo e sacramentou a vitória brasileira.
Este momento selou a coroação de Pelé e o reconhecimento do Brasil como o país do futebol. A Seleção se tornava a primeira tricampeã mundial da história das Copas. A celebração no Brasil foi intensa, marcada pela marchinha "Pra frente, Brasil", que acompanhou toda a jornada. Com o terceiro título, a taça Jules Rimet tinha um dono fixo e não seria erguida novamente por nenhum outro capitão. O retorno dos jogadores transformou Brasília em um grande carnaval em pleno mês de junho, com as comemorações se estendendo para o Rio de Janeiro e São Paulo.
Jogadores convocados
Goleiros:
- Félix – Fluminense
- Ado – Corinthians
- Leão – Palmeiras
Defensores:
- Carlos Alberto Torres – Santos
- Zé Maria – Portuguesa
- Marco Antônio – Fluminense
- Everaldo – Grêmio
- Piazza – Cruzeiro
- Brito – Flamengo
- Baldocchi – Palmeiras
- Fontana – Cruzeiro
- Joel – Santos
Meias:
- Clodoaldo – Santos
- Rivelino – Corinthians
- Gérson – São Paulo