O Papel do Futebol na Sociedade
O futebol é um esporte que transcende o simples entretenimento, desempenhando um papel significativo na educação e na inclusão social. Historicamente, o futebol tem sido um instrumento poderoso para promover mudanças e transformar realidades. Um exemplo notável ocorreu em 1969, quando o Santos, liderado por Pelé, conseguiu interromper temporariamente a guerra civil na Nigéria, demonstrando a força simbólica que o esporte pode exercer em momentos de crise. No entanto, episódios recentes revelam que o racismo e o machismo ainda persistem como desafios estruturais, tanto no Brasil quanto na Europa.
Machismo nas Quatro Linhas
Durante o Campeonato Paulista, o zagueiro Gustavo Marques, do Bragantino, fez comentários controversos após a eliminação de sua equipe diante do São Paulo. Ele criticou a escolha da árbitra Daiane Muniz para apitar a partida, afirmando: "Eu acho que a Federação Paulista tem que olhar para os jogos desse tamanho e não colocar uma mulher." Embora tenha se retratado após a repercussão negativa de suas palavras, essa declaração expõe uma realidade preocupante: a resistência à presença feminina em posições de autoridade dentro do futebol. Essa situação não é um incidente isolado, mas sim um reflexo do machismo estrutural que ainda permeia o esporte.
Racismo Além das Arquibancadas
Na Europa, o racismo também se manifestou de maneira preocupante em dois incidentes que ganharam destaque na Inglaterra. Após um empate entre Chelsea e Burnley, os jogadores Wesley Fofana e Hannibal Mejbri foram alvo de ofensas racistas nas redes sociais. Ambos os atletas tornaram públicas as mensagens de ódio, evidenciando que a violência racial não se limita apenas ao ambiente das arquibancadas, mas se espalha também pelo espaço digital.
Na Espanha, o atacante Vinícius Júnior, jogador do Real Madrid, voltou a ser alvo de ataques racistas. Durante uma partida, torcedores do Osasuna teriam entoado a frase "Vinicius, muerete" ("Vinicius, morra"). O jogador brasileiro tem sido uma vítima recorrente de racismo desde sua chegada ao futebol europeu. Apesar de algumas punições terem sido aplicadas em casos anteriores, os episódios de racismo continuam a se repetir, o que indica que as respostas atuais ainda são insuficientes para enfrentar essa questão de forma estrutural.
Um Problema Estrutural e Global
Por muitos anos, o futebol foi visto como um espaço que estava à parte das questões sociais mais amplas. Cânticos homofóbicos e racistas eram frequentemente naturalizados nas arquibancadas, e a legislação vigente não tratava essas atitudes como crimes. Felizmente, houve avanços legais e sociais que começaram a estabelecer limites e punições para comportamentos discriminatórios. No entanto, a mudança cultural ainda está em fase de desenvolvimento.
O futebol internacional também já foi palco de manifestações antissemitas, que revelam a diversidade das formas de discriminação que podem ocorrer dentro do esporte. Casos como o gesto da "quenelle" realizado por Nicolas Anelka em 2013 e o uso de adesivos com a imagem de Anne Frank por torcedores da Lazio em 2017 mostram que a discriminação pode assumir diferentes formas e contextos, exigindo uma resposta consciente e eficaz da comunidade do futebol.
O Papel Transformador do Esporte
É importante reconhecer que o futebol não apenas reflete a sociedade, mas também possui o potencial de transformá-la. Se já foi capaz de interromper conflitos armados em momentos críticos, o esporte deve agora assumir a responsabilidade de combater o racismo, o machismo e todas as formas de discriminação. Não há lugar para o preconceito no futebol — isso se aplica tanto dentro de campo quanto nas arquibancadas e nas redes sociais.
A luta contra o racismo e o machismo no esporte é uma batalha que requer um esforço conjunto de jogadores, clubes, federações e torcedores. A mudança é possível, e o futebol, como uma das maiores paixões do mundo, tem um papel crucial a desempenhar na promoção de um ambiente mais inclusivo e respeitoso para todos.
