Murilo Costa: A Ascensão do Atacante Brasileiro no Futebol Português
Murilo Costa, atacante brasileiro que defende o Gil Vicente, destacou-se no Campeonato Português ao superar desafios de adaptação, incluindo o sotaque madeirense. Atualmente, ele sonha com uma vaga histórica na Liga dos Campeões para sua equipe.
Desafios de Adaptação
O estilo de jogo, a culinária e os costumes locais são frequentemente apontados como empecilhos na adaptação de jogadores brasileiros que chegam a Portugal. No entanto, para Murilo Costa, houve um aspecto curioso e inesperado que o surpreendeu: o idioma.
Antes de se tornar um dos destaques do Gil Vicente, a sensação do Campeonato Português na temporada atual, o jovem atleta nascido em São José do Norte, no Rio Grande do Sul, chegou a Portugal pela primeira vez em 2017. Na época, ele se juntou ao Nacional, um clube da Ilha da Madeira, famoso por ser o local onde Cristiano Ronaldo deu os primeiros passos em sua carreira no futebol.
Diferentemente das grandes cidades de Portugal e até mesmo do sotaque do jogador mais famoso da região, o sotaque dos moradores da Madeira fez com que Murilo questionasse o que estava ouvindo. “Quando cheguei ao Nacional, tinha tido contato apenas com o gerente do clube que nos buscou no aeroporto. No dia seguinte, nos apresentamos ao grupo, e os jogadores começaram a falar. Eu não entendia o que estavam dizendo. Eu e os outros brasileiros começamos a nos olhar: ‘Eles estão falando português? Que língua é essa?’ Chegamos a Portugal e ouvimos os portugueses de Lisboa falando. Na Ilha da Madeira, eles têm um sotaque muito forte. Ficamos com dúvidas se realmente todos falavam português”, relatou em entrevista ao Terra.
O maior estranhamento ocorreu ao pensar que todos os madeirenses falariam como Cristiano Ronaldo. O craque, por sua vez, deixou a Ilha ainda criança para jogar pelo Sporting e, posteriormente, teve uma carreira internacional. “Conhecemos o Cristiano Ronaldo. Ele não fala assim. Os caras dizem que o Cristiano saiu do Nacional com 11 anos. Ele passou mais tempo em Lisboa e em Manchester do que na Ilha da Madeira. O português pegou um pouco a gente. Às vezes, o auxiliar falava, e eu não entendia muito o que era para fazer. Aquele nervosismo de estar pela primeira vez fora do Brasil me fazia cometer alguns erros de posicionamento”, acrescenta.
Crescimento Profissional e Destaque no Gil Vicente
Quase uma década depois e com passagens por Espanha e Japão, a história contada com bom humor se transformou em uma experiência que ajudou Murilo a amadurecer como atleta. A vivência adquirida ao longo de sua carreira agora o ajuda a ser um dos pilares do Gil Vicente. Após oito rodadas do Campeonato Português, o time da cidade de Barcelos ocupa a quarta colocação, atrás apenas de Porto, Sporting e Benfica. Esse desempenho faz do Gil Vicente um dos destaques da imprensa esportiva portuguesa nas últimas semanas.
“O pensamento é jogo a jogo. Jogar de igual para igual com todos, como fizemos contra o Porto, Braga e Benfica. Todos tiveram uma visão diferente, que realmente uma equipe pode ir em um estádio grande e jogar da maneira que jogamos. Isso tem chamado a atenção. Os jornais falam da nossa equipe todos os dias, e em todo programa de TV que assisto, estão comentando sobre nós e nossas exibições”, comentou Murilo.
Um Amuleto para o Gil Vicente
Murilo pode ser considerado um verdadeiro amuleto para o Gil Vicente. Ele também fez parte do elenco em 2022, quando a equipe encerrou a temporada na quinta colocação, garantindo assim uma vaga na Conference League. Agora, o sonho é ainda mais ambicioso: “Eu sonho alto e gostaria que pudéssemos colocar o Gil Vicente como um azarão em um playoff da Liga dos Campeões. Isso seria histórico não apenas para o clube, mas também para o país. Mas, por enquanto, queremos defender nosso quarto lugar. Segundo as palavras do nosso treinador, devemos sempre olhar para o time que está acima de nós, que neste momento são apenas os três grandes”, afirmou.
Início de Carreira no Brasil
Antes de se aventurar no exterior, Murilo vivenciou diferentes lados do futebol brasileiro. No início de sua carreira, seu destaque em uma Copa São Paulo o levou ao Internacional, onde realizou um sonho de infância. “Todo jogador de futebol merece jogar, pelo menos, um jogo profissional pelo time do coração. Tive esse privilégio. Foi mágico no Inter. As coisas aconteceram muito rápido. Quando cheguei ao profissional, lembro como se fosse hoje meu primeiro gol como profissional pelo meu time de coração, no Vermelhão da Serra contra o Passo Fundo. Foi um dos dias mais felizes da minha vida no futebol. No fim do jogo, o Abelão ligou pedindo para eu me apresentar com o profissional”, recorda.
No entanto, a ansiedade de um garoto para atuar em campo, aliada ao acompanhamento que ele hoje considera inadequado de empresários, dificultaram seu desenvolvimento inicial. Com apenas seis partidas e um gol pela equipe profissional do Inter, Murilo assinou contrato com um grupo de empresários que o levou ao Botafogo, que na época enfrentava dificuldades. Na equipe carioca, as oportunidades foram escassas, e o atacante acabou rodando pelo Brasil, passando por clubes como Macaé, Lajeadense, Joinville e Juventude.
“Estava vivendo aquela relação em que empresários criavam clubes e fidelizavam jogadores em contratos de um clube que não existia. Isso atrapalha muito o jogador, pois a gente assinava por um ano e meio, dois anos de contrato. Na época, eu fazia parte de um grupo de investidores em um clube fictício. Acredito que, naquele momento, sofri muita influência para sair do Inter e ir para o Botafogo para jogar logo. Comecei a rodar, e onde consegui me reencontrar um pouco foi no Juventude”, analisa sobre seu passado.
Atualmente, firme na primeira divisão portuguesa, Murilo não descarta uma possível volta ao futebol brasileiro. Seu objetivo principal, no entanto, continua sendo a participação na Liga dos Campeões, seja pelo Gil Vicente ou por outro clube.